LÊDA DE ARTE LEDA

História da renomada escultora mineira Lêda Gontijo é contada em documentário

Há adjetivos que só se ligam a um substantivo específico. É o caso de ledo, que serve à palavra engano e significa alegre, contente, jubiloso. No documentário sobre a escultora mineira Lêda Gontijo, o jornalista e escritor Ziraldo conta que não sabe como um engano pode ser alegre, mas entende perfeitamente que a obra de Lêda carrega consigo a melhor definição em leda mesmo.

Daí o título do filme, Lêda de Arte Leda, que está na Mostra Retratos Curta, do Festival do Rio, e foi dirigido por Daniela Gontijo, neta e admiradora da avó, artista plástica de renome no Brasil e no mundo.

Dona Lêda, hoje aos 92 anos, (durante a gravação do material, estava com 90 anos e 9 meses, como gostava de informar) dá formas corpulentas a matronas generosas, santos, anjos e bichos utilizando a madeira, o barro, o metal, o concreto e a fibra de vidro. No ateliê de Lagoa Santa (MG) onde produziu a maioria das obras e mora há mais de 20 anos, Lêgo (como assina as obras) revela que a intuição a fez seguir os passos de artista. “Sempre fui autodidata”, também afirma. Em 1944, Lêda entrou para a escola de Belas Artes do Parque Municipal, atual escola Guignard, e ficou dois anos lá, mas não havia professor para as aulas de escultura que queria cursar. Do período, restou a amizade com o pintor modernista Alberto da Veiga Guignard, que a considerava uma revelação.

Lêda Gontijo foi a primeira mulher a ganhar a medalha Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelos trabalhos São Tomás de Aquino e Santo Agostinho (1964). Ela esculpiu os santos para o Panteão dos Imortais na ABL, a pedido de Austregésilo de Athaíde, então presidente da casa. No velório de Antonio Callado na Academia, Silvana Gontijo viu que as esculturas da mãe haviam sido pintadas de preto nos rostos e mãos. A ABL tomou conhecimento durante a gravação do filme e resolveu restaurar as esculturas.

Como Silvana, os outros filhos de Lêda, que entrecortam o filme com depoimentos, falam da mãe com carinho e bom-humor, como quem conta mais um “causo” do folclore mineiro. Despertam ainda mais a vontade de conhecer a senhora forte, autora das obras que o documentário vai gradativamente revelando ao expectador.

A personalidade extrovertida da artista é destacada no trabalho de Daniela, que preferiu não interromper os depoimentos de Lêda. A diretora não alterou significativamente a rotina diária da escultora, acompanhando-a com a câmera ligada nas suas saídas de carro, na sua ida ao mercado, no ateliê, e gravando as conversas em sua própria casa, sem nenhum tipo de programação. A simplicidade com que o documentário apresenta a vida e a obra de Lêda é um convite ao expectador, que pode continuar a conhecer a artista pelos extras. Depoimentos de Lêda, de críticos de arte, de parentes e amigos se dividem nos 10 capítulos que o DVD oferece.

Mais sobre Lêda

Lêda Selmi Dei Gontijo nasceu em 1912, em Juiz de Fora, Minas Gerais, na casa de sua avó, Maria Luiza. Ela começou a esculpir no miolo de pão deixado na mesa do jantar por seu pai, que era italiano e costumava molhar o pão no vinho. Sua mãe, Risoleta, logo percebeu sua habilidade para o desenho e a arte em geral. Risoleta pintava, mas não profissionalmente. As irmãs de Lêda também pintavam. Lula pintava porcelana e Lisete pintava aquarelas tendo sido aluna e depois professora da escola Guignard.

Lêda participou de algumas exposições coletivas, principalmente de alunos da escola Guignard. Em 1980 realizou, no Palácio das Artes, em Minas Gerais, a exposição “Bichos e Gente”. Em 2002, aos 90 anos, foi convidada a expor no Museu Nacional de Belas do Rio de Janeiro. Para a exposição, inaugurada no dia 19 de agosto de 2003, Lêda preparou uma série de peças novas em madeira e também em Pedra Sabão. No ano de 2005 realizou uma nova exposição no Minas Tênis Clube, (Minas II) em Belo Horizonte.

Em 1936, casou-se com Paulo Macedo Gontijo, e tiveram seis filhos. Paulo faleceu em 2002, depois de completarem 65 anos de casados. Lêda têm 91 anos e mora sozinha, na mesma casa, em Lagoa Santa, onde funciona seu ateliê onde continua trabalhando.